Exclusiva – Secretário diz que Gênesis separa joio do trigo e mexe com a zona de conforto de alguns educadores

Exclusiva – Secretário diz que Gênesis separa joio do trigo e mexe com a zona de conforto de alguns educadores

Texto e entrevista: Vinicius Canova
Fotos: Gregory Rodriguez

Porto Velho, RO – “Omissão também é uma forma de pecado”. A frase, de acordo com o secretário de Educação Florisvaldo Alves da Silva, o Valdo, foi visceral para que aceitasse o convite apresentado pelo governador Confúcio Moura (MDB). Disposto a rejeitar as investidas, ainda que lisonjeado com a consideração de seu nome, Valdo, diante da assertiva exposta pelo governador, cedeu e passou a comandar a pasta da Educação em janeiro de 2017 após a queda da antecessora – Fátima Gavioli.

No olho do furacão, como o próprio considera, Valdo recebeu a reportagem do jornal eletrônico Rondônia Dinâmica em seu gabinete na Secretaria de Estado da Educação (Seduc) – que hoje integra o Palácio Rio Madeira. O encontro ocorreu na última quinta-feira (22).

Em exclusiva, o secretário falou sobre a greve na educação, defendeu o controverso Projeto Gênesis, abordou em que panorama seria possível conceder aumento salarial aos educadores e afirmou, ainda, que há professores que estão roubando os colegas – com essas palavras.  

Também explicou os problemas no setor de Lotação, desmentiu denúncias apresentadas por professores e informou que não há perseguição por parte da pasta a qualquer profissional que seja.

Rondônia Dinâmica – Como o senhor avalia essa greve na educação aos 45’ do segundo tempo do governo Confúcio?

Florisvaldo Alves da Silva – O Governo do Estado está dialogando com o sindicato, reconhece a greve, além das pautas de reivindicações da entidade. Tudo está sendo estudado para ver o que é possível atender. Algumas situações não dependem exclusivamente da Seduc. Dependem, na realidade, da equipe econômica do governo. Porque qualquer aumento concedido a qualquer categoria neste momento impactaria na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

RD – E como são tomadas as decisões econômicas?

FAS – Como sabemos, o Estado vive hoje um equilíbrio econômico e fiscal. O salário dos servidores tem saído rigorosamente em dia. Mas pra que isso ocorra, temos de fazer o dever de casa. Então, assim, estamos realizando estudos preliminares dentro da Seduc para ver o que é possível fazer. Entretanto, com ressaltado, as decisões econômicas passam pela Mesa Estadual de Negociação Permanente (MENP) e pela equipe econômica do governo como um todo.

RD – O sindicato alega que a MENP não ouve as reivindicações da categoria, que as decisões são sempre infrutíferas. Por isso até pediu uma reunião com o governador Confúcio, o que não foi atendido. Na sua visão, a postura não é uma espécie de maneira de passar a responsabilidade adiante já que em abril deve começar o governo do vice Daniel Pereira (PSB)?

FAS – Eu não vejo dessa forma. Na verdade o que acontece é o seguinte: quando o governador criou a MENP, fortaleceu o Estado para que não houvesse decisões eleitoreiras. Porque um governador que está saindo poderia muito bem jogar pra galera, digamos assim, poderia agradar a uma classe ou a todo mundo porque não teria mais responsabilidade sobre os aumentos dados.

RD – Como o governador age, então?

FAZ – O governador tem blindado isso ao longo dos anos para não tomar decisões isoladas privilegiando classe A ou B em detrimento à economia do Estado. Com isso, ele criou a MENP, que é uma instituição constituída através de lei, empoderada para calcular toda e qualquer possibilidade de aumento no Estado. Por quê? Pra que a economia do Estado continue forte. E assim vem acontecendo ao longo dos anos e nos mantendo da forma como estamos: com as contas equilibradas. Por isso existe a MENP.

RD – Mas por que não uma conversa direta com o governador?

FAS – É lógico, reconhecemos que todo e qualquer sindicato quer negociar com seu mandatário, com aquele que foi eleito. Mas não quer dizer que a equipe à frente da MENP não seja a equipe que esteja gabaritada para fazer as negociações. Porque ela detém o controle com o Orçamento, Planejamento, a Procuradoria-Geral do Estado, enfim, todos esses entes que continuarão sendo o Estado em si. O governador vai passar. O secretário de Educação vai passar, mas os técnicos da MENP irão continuar – até porque tem membros de carreira em sua composição, como o procurador-geral do Estado.

RD – Essa “peneira” evita decisões políticas?

FAS – Eu vejo a MENP como necessária em qualquer governo, não só no governo Confúcio. Porque acho que as decisões que privilegiam o sindicato ou que privilegiam qualquer tipo de aumento, se passassem por crivos estritamente políticos, poderiam render um problema gigantesco no futuro.

RD – Desde que o senhor assumiu a secretaria, quais foram as principais mudanças na Educação?

FAS – Na parte educacional, na questão de ensino, a secretaria estava caminhando dentro de suas possibilidades. O convite feito pelo governador Confúcio ocorreu porque minha formação é de gestor. Então eu tenho formação em Gestão Pública e outras duas formações e já atuo na função pública há mais de 23 anos. Assim, ele pediu que eu desse a minha contribuição no processo organizacional e de modernização da secretaria. Desde o início ele reconhecia o seguinte: que não conseguiu avançar muito no governo dele nas questões de processo organizacional da secretaria, e para isso é que nós fomos convidados.

RD – E por que o controverso Projeto Gênesis?

FAS – Em relação ao Projeto Gênesis, o tão polêmico sistema Gênesis, é o sistema que eu digo que é o princípio de tudo em termos de processo organizacional dentro da Seduc. Porque hoje 86% da arrecadação, do orçamento da Seduc, são para custear a folha de pagamento. Logo, a primeira gestão tem de ocorrer dentro da folha de pagamento.

RD – Como a folha ficou tão inflada, secretário?

FAS –Ao longo dos anos a secretaria foi contratando, contratando servidores e hoje tem uma folha com 22 mil servidores – dos quais muitos estão fora da sala de aula. Então, o Estado teria de continuar contratando. O sistema de cadastramento Gênesis vem justamente para isso: não só para a questão de folha de pagamento e servidores, mas para a questão de avaliação dos índices do aluno lá na ponta, do controle no transporte escolar, controle de merenda, enfim, ele é muito mais do que o servidor está achando – como se fosse só para o controle do servidor. Não, de forma alguma. Ele é um sistema de gestão educacional, que vai monitorar e avaliar e educação no Estado de Rondônia como um todo.

RD – Recebemos informações e declarações de tumultos e pessoas passando mal na Lotação. Outras disseram que foram obrigadas a ficar o dia todo, por vezes até mesmo após às 19h. O que ocorreu, de fato, secretário?

FAS – Na verdade é o seguinte: quando estamos fazendo mudanças a gente está mexendo com a zona de conforto das pessoas. Então, automaticamente, você cria animosidade. Porque você as tira, como disse, da zona de conforto. E essas pessoas saem falando o que querem. E a outra ouve aquilo que é dito e a situação se torna o velho telefone sem fio que a gente conhece da brincadeira de infância.

RD – E qual é a versão da Seduc sobre os relatos?

FAS – O que acontece, na verdade, é assim: as pessoas estão interligando problemas de relotação ao sistema Gênesis. O que não é simplesmente uma verdade. Porque a relotação existiu em todos os anos na Seduc. A relotação é uma coisa que acontece anualmente. Por quê? Porque escolas abrem, escolas fecham, pessoas mudam de lugar, a necessidade que havia em determinada localidade já não existe mais em outra. A relotação é um processo que já existe na Seduc e continuará existindo todos os anos daqui para frente.

RD – O Gênesis tem algo a ver com isso?

FAS – O que aconteceu, especificamente este ano, é que com o Gênesis os diretores é que tiveram a autoridade de colocar à disposição os excedentes de cada escola. O Gênesis fez com que, com a tipologia da escola, o diretor tivesse um número limitado de pessoas que poderia lotar naquela escola e aí, consequentemente, teria de fazer a devolução do excedente.

RD – Como a secretaria lidou com a situação?

FAS – A partir daí, a secretaria se organizou da seguinte forma: cada dia seria uma disciplina. Num dia seria pedagogia, em outro dia, matemática, no seguinte, química. O sistema quando vai preencher os dados funciona como um cadastro. Ele cadastra se a pessoa já fez especialização, se tem mestrado, porque nós precisamos saber inclusive para melhorar o rendimento e a gratificação dela. Porque às vezes ela fez especialização, mestrado, enfim, tem toda uma documentação a ser apresentada. E isso não é um cadastro rápido.

RD – Como funciona, então?

FAS – Nós distribuímos senhas pra que as pessoas fossem atendidas. E as pessoas às vezes pegavam a senha e ficavam o dia todo aqui esperando. O que ocorre no Palácio [Rio Madeira], e também a gente tem de esclarecer, é que há regras de segurança que não dependem da Seduc. Porque estamos falando de uma segurança de prédios interligados, onde há equipamentos, bens móveis e coisas de valor. Então você não pode ter, por exemplo, as pessoas circulando num prédio público depois de certa hora porque qualquer roubo que ocorrer ali pode ser considerado e pessoas serem culpadas. Então o prédio é todo monitorado e tem essa situação. Por isso a partir de 13h30 as pessoas tinham de permanecer no prédio. Elas não poderiam sair para depois retornar. Mas até 13h30 elas poderiam almoçar aqui na frente [da Seduc], buscar um lanche, sair,  vir aqui, pegar a senha, e sair.

RD – Mas as pessoas poderiam sair ou não?

FAS – O que se levantou muito é que a pessoa chegou de manhã e ficou o dia todo para ser atendida. Mas isso não quer dizer que ela não poderia sair. Ela tinha uma senha como a senha de banco. Quando a gente vai ao banco e pega, por exemplo, a senha 200 e ainda está na 10, você sabe que tem cento e poucas pessoas para atender. Então você pode sair e sabe que pode voltar mais tarde. E aí as pessoas poderiam ficar também a partir de 13h30. O que acontece é que algumas pessoas que saem irritadas porque não foram lotadas na escola perto da casa delas ou porque foram tiradas de sua zona de conforto começam a vender toda uma situação de que foram maltratadas, de que passaram o dia todo. E, como nós sabemos também, você tem colegas jornalistas que fazem o jornalismo sério e temos os sensacionalistas, os que pegam uma matéria e escrevem o que querem. Isso também aconteceu na secretaria. Então, assim, a gente brinca que é a teoria do caos: quanto pior, melhor. Tem gente que vende essa teoria para gerar o caos. Mas não é verdade.

RD – Isso não aconteceu, então, secretário? Professores não ficaram das 07h às 19h?

FAS –  Não, não... Volto a dizer: os que ficaram foram os que quiserem ficar. Porque o sistema que criamos aqui era o de senha. O dia de pedagogia, o de geografia. O professor recebeu uma senha. Então se naquele dia havia 80 pessoas para receber atendimento ocorre que, por exemplo, gente que pegou a senha 50 chegou de manhã e, por medo de alguma coisa, ficou o dia todo. Então pode sim [alguém] ter ficado de manhã à tarde, mas por condição [da pessoa], não porque nós criamos a condição de que ela não poderia sair.

RD – Mas se o professor saísse e perdesse a vez haveria problemas, não?

FAS – Se ele saísse, né? Mas ele tinha uma margem de segurança, você concorda comigo? Porque pelo tempo de atendimento ele teria margem de segurança. E a outra coisa que quero dizer é o seguinte: logo em seguida, quando apuramos que o atendimento estava um pouco moroso porque eram oito pessoas fazendo o cadastramento, mandamos providenciar lanche. Ontem teve lanche, hoje teve lanche, tanto na parte da manhã quanto na parte da tarde. Tem lanche, tem café, tem água. Se vocês saírem e tirarem fotos perceberão que há cadeiras para todo mundo, ninguém fica em pé. Ninguém fica em fila. Ninguém está no sol. Ninguém está na chuva. Entendeu?

RD – As reclamações surpreenderam o senhor?

FAS – Me admira muito que isso ocorra levando em conta o fato de que a pessoa tem de fazer a relotação dela apenas em um dia durante o ano inteiro. E ela sempre soube que teria de fazer. A gente vai para uma fila de banco onde você está pagando coisas e as pessoas ficam o dia todo. Você vai para uma fila de INSS e fica de um jeito que chega a ser desumano. Então, assim, a Seduc buscou o conforto e as condições mais propícias possíveis. Como disse, se você passar lá e tirar fotos, há cadeiras para todo mundo, televisão para o pessoal assistir, lanche, água, café, entendeu? E isso [a relotação] leva apenas um dia. Não houve fila na madrugada, não teve sol, não teve chuva. Como eu disse: cada pessoa gostaria da sua comodidade individual, e nisso nem sempre a gente consegue agradar.

RD – Não ocorre, por conta dos agendamentos, casos em que o professor acaba tendo de dar uma aula na Zona Leste e depois em quatro ou cinco escolas distantes uma da outra? Não parece um pouco injusto diante de outros que têm essa comodidade à disposição? O senhor não enxerga isso como uma reinvindicação legítima?

FAS – O sistema, neste momento, não está trabalhando para poucos. Ele está trabalhando para muitos. Então, como disse inicialmente, é um diagnóstico. E no diagnóstico temos de fazer o que está ali. Depois virão as exceções. Aí, quando tivermos a noção do todo, será possível trabalhar as exceções. Porque se eu começo trabalhando com as exceções não consigo trabalhar o todo, entende? Por exemplo, a questão da localidade. Vi gente falando que teria de ser lotada lá em Candeias. Candeias nós demos a oportunidade para o professor informando que havia vaga lá. Então, para preencher o número de horas que ele tem contratado com o Estado, muitas vezes ele [educador] aceitou Candeias, mas o Estado não o obrigou. Nós demos como opção. Se ele disser “Não vou para lá”, o Estado buscará as alternativas que têm. Agora, o que o Estado não pode fazer é atender pessoas que dizem: “Só dou aula se for na escola tal”.   Isso o Estado não pode fazer. Porque, por exemplo, se elas fizeram concurso para Porto Velho, elas têm de dar aulas em Porto Velho – independentemente do bairro ou da escola.

RD – E pessoas com idade mais avançada?

FAS – Óbvio que, como eu disse, existem as exceções. O Estado está sensível às causas das professoras de 20 anos, de 30 anos [de serviço] que sempre laboraram numa escola e não é agora que iremos mudá-las de lá. Aí tem gente que está desesperada dizendo “Ah, mas eu fui devolvida no excedente da minha escola”. É natural que o diretor, num primeiro momento, vai pegar o corpo técnico que mais parece, na visão dele, razoável – o melhor quadro que ele tem.  Nós faremos a avaliação individual dos excedentes para que a gente prejudique o mínimo possível a vida das pessoas.

RD – Por que existem professores formados em determinada área lecionado disciplinas que, pelo menos aparentemente, nada tem a ver com suas respectivas formações? Como funciona isso?

FAS – O que um professor pode lecionar em termos de outra disciplina? Por exemplo, um pedagogo pode dar aulas de filosofia, sociologia, artes, né? Então você tem uma segunda lotação que é possível. E também analisando o quadro, por exemplo, o cidadão fez concurso para determinada área, mas, com o tempo, se graduou ou se especializou em outras. O sistema irá permitir, se houver necessidade, a adequação. Mas também existe a preocupação dos pedagogos. A preocupação hoje, generalizada no meio de comunicação, é a fala de que o Estado demitirá os pedagogos. Que irá transferi-los para outras cidades. Isso não vai existir. A Diretoria-Geral de Ensino tem várias metodologias  que precisam ser aplicadas. Então o que ocorre hoje? Com o reordenamento, o Estado passou a ter obrigação apenas do Fundamental II e do Ensino Médio. Nós temos um excedente de pedagogos no Estado. Então o pedagogo pode ser aproveitado para dar reforço escolar. Estamos pensando em criá-lo [reforço escolar] para lotar esses pedagogos. Eles também podem ficar à disposição das coordenadorias.

RD – O senhor disse que quer separar o joio do trigo. Façamos isso, então. A Seduc sabe, exatamente, quantos professores estão fora da sala de aula?

FAS –  Não podemos dar um número preciso. Quando eu digo pra você que tenho quase 50% dos professores fora da sala de aula não quer dizer que todos sejam um problema. Temos professores com problemas de saúde e que precisam de avaliação através de junta médica. Temos quase três mil professores em condições de aposentadoria e precisamos ser mais céleres nesses processos. Temos diversos casos e o sistema nos auxiliará na identificação. Agora, é aquela história: não é mais uma planilha, é um sistema que nos pontua caso a caso. Vamos saber quem está afastado por desvio de função, quem está afastado porque à disposição de outro órgão que não deveria. E há casos de gente que pega licença sem remuneração, que para o Estado também é um ônus pesado. Porque tem gente que fala: “Ah, mas ele pegou licença sem remuneração, ele não custa para o Estado”. Na verdade, ele continua na folha do Estado, só não recebe. Mas o Estado fica impossibilitado de contratar. Esses casos também precisam ser diagnosticados pelo Estado. Com o sistema, o cadastramento fará isso. Ele irá mostrar para nós cada um deles.

RD – Dentro das propostas que o sindicato levanta, o que o Governo do Estado pode atender – pelo menos por ora?

FAZ – Por ora, estamos avaliando. Ainda é muito cedo. A progressão é possível. No ano passado nós pagamos as progressões, então este ano também podemos trabalhar em cima disso. A questão da capacitação dos professores, podemos trabalhar uma forma melhor de capacitá-los. As questões do mestrado, doutorado, são pautas extremamente importantes para o ensino e o aprendizado. Sou muito tranquilo em dizer que o sindicato tem de vir para dentro desse processo de relotação, as portas da secretaria estão abertas para que faça parte disso e exija que seja o correto. Porque aí, acho, essa economia que podemos gerar com o recadastramento tem de ser aplicada para o aumento do salário dos professores. Acho que o sindicato pode ajudar a gente a fazer o recadastramento, separando o joio do trigo, como te falei. E aí esse valor economizado será realmente aplicado para o aumento nos vencimentos dos professores.

RD – O senhor poderia explicar melhor sua tese a respeito da possibilidade dos 15% de aumento?

FAS – Eu digo assim, hipoteticamente, quero deixar claro aqui, que se o trabalho for bem feito nós podemos dar uma média de 15% de aumento. Porque é o seguinte: nós temos 780 professores contratados de forma emergencial. Se o recadastramento apurar que não precisamos desses emergenciais, que temos professores para lotar, seriam 780 professores que não precisaríamos pagar e o valor iria, como disse, para essa possibilidade de aumento em 15%.

RD – E os prestes a se aposentar?

FAS – Nós temos 2,7 mil professores, quase 3 mil, em condições de aposentadoria. Se o Estado acelerar essas aposentadorias fazendo com que esses professores se aposentem, claro, os que queiram, estamos falando aí de quase 3 mil servidores que sairiam, de certa forma, da nossa folha de pagamento. E já estão praticamente fora. Se estamos falando de um universo de 14.800 professores, 3 mil dá uma média de 20%. Com esses 20% poderíamos trabalhar com aumento e valorização da classe. O sistema de cadastramento monitora a questão do futuro do Estado de Rondônia em relação às contratações.

RD – Como?

FAS – O que irá ocorrer? Conforme o sistema vai apurar, acendendo o sinal vermelho informando que o professor está a três anos, dois anos para se aposentar, o Estado já terá preparação para promover contratação específica àquela localidade. Inclusive formar pessoas daquela cidade para poder exercer a função.

RD – O senhor acha que o Gênesis será o grande legado do governador Confúcio na área da educação?

FAS – Não acho que seja apenas do governo Confúcio. Sou muito franco, e de todo o meu coração como profissional na área de gestão, digo que não será um legado do governador Confúcio, que está saindo. Não é um legado do Valdo, que está saindo. É um legado dos profissionais da educação no Estado de Rondônia. Porque ao longo dos anos os bons pagaram pelos ruins.

Está na hora de o professor que está lá na sala de aula, daquele que sempre viu o colega se encostando, que sempre viu o colega não querendo dar aula, e ele carregando esse servidor nas costas sendo conivente, de se fazer valer. Ele agora tem de ter voz e precisa exigir mudanças. Porque esse professor que trabalha não teve melhorias no salário, as condições também não melhoraram porque o dinheiro da educação está ficando com esse profissional que não quer fazer o trabalho dele.

E chegou a hora de exigir que essas pessoas que não queiram dar aulas, que não queiram exercer suas funções, que acabaram de passar num concurso e não fazem seu trabalho, serem expostas. Que o correto não faça parte disso. Acho que mais do que o governador, mais do que o secretário que estão de passagem e são agentes políticos, acredito que o sistema, e volto a dizer, não é um sistema de cadastramento de servidor, é um sistema de gestão da educação, que irá monitorar transporte escolar por rota pra gente  saber onde o ônibus passa.

FAS – Porque o ônibus pode passar onde não tem aluno e a gente ainda ter de pagar por isso. Passa a monitorar também o aluno que está tirando nota baixa para que o pai saiba, a mãe saiba. E antes mesmo de vir uma Prova Brasil.

Vamos saber se o professor está dando uma boa aula. Se o aluno está aprendendo. Qual é a dificuldade que ele  em lá em Nazaré para aprender matemática. Enfim, teremos todos esses dados.

Vamos rastrear, ainda, o aluno evadido, fora da sala de aula. Porque nosso aluno evade da sala e a gente só vai saber ao final do ano. Ele faz a matrícula no início do ano, para de frequentar a escola e ninguém vai atrás desse aluno. Ninguém vai bater na porta da mãe dele saber por que ele não vai mais às aulas.

Então, é um sistema de gestão educacional, não de cadastramento, de caça às bruxas, perseguindo dona Maria, seu João, não é essa a finalidade.

De forma alguma a intenção é perseguir quem quer que seja! É um sistema de gestão que inclusive será facilitador na educação do futuro, até mesmo para o sindicato que hoje trabalha no escuro.

O sindicato precisa ficar implorando por informação e no futuro terá informações precisas sobre todas as pessoas que trabalham, onde trabalham, quanto ganham, o que estão fazendo, rendimento, tudo!

RD – O senhor teria algum recado a dar aos professores insatisfeitos ou ao sindicato que alega desrespeito por parte do governo?

FAS – Quero dar um recado aos bons professores, os professores vocacionados, àqueles que escolheram essa profissão, que têm essa profissão como sacerdócio, que fizeram da sua vida um grande legado. O que estamos fazendo, como já disse, é separar o joio do trigo. Espero que vocês se apropriem desse sistema de gestão educacional para melhoria da classe, do ensino e aprendizado, das escolas. Esse secretário vai passar. Esse governador vai passar. Vocês irão sentar diversas vezes para conversar. O sindicato vai conversar com os próximos governantes, com os próximos secretários: não há que se falar em aumento salarial se não houver política de gestão na folha de pagamento e nos controles da educação.

Então assim, quero deixar muito claro para os nosso professores que irão ouvir ou ler esta entrevista: essa é uma briga entre o certo e o errado. Precisamos novamente acreditar em ter ética. E a ética que vocês aplicam tanto e constantemente nas escolas precisa ser aplicada para alguns dos seus colegas de trabalho. Porque os colegas de trabalho de vocês os estão penalizando, pesando pra vocês, fazendo com que estejam na situação onde estão.

Esse momento é um momento de vocês lutarem, mas, mais do que lutarem e apontarem certo ou errado, é lutarem pelo que acreditam, para a melhoria da própria classe.

FAS – Eu não vejo neste momento quem está certo ou quem está errado. Não tem governo certo, governo errado. Não tem sindicato certo, sindicato errado. O sindicato luta pela melhoria da classe e concordo. Porque o piso salarial do professor tem de melhorar. E o governo por outro lado tenta buscar o equilíbrio econômico do Estado  porque não é possível conceder aumento aleatoriamente. O estado não pode ser inconsequente e dar aumento se não pode dar. E como podemos dar o aumento? Fazendo nosso dever de casa, olhando para as nossas contas.

Porque aquele servidor que presta concurso para dar 40 horas/aula e dá duas, quatro ou cinco, está lesando o Estado, pesando para o colega dele. E, me desculpe a palavra, está roubando o colega. Porque ele foi contratado para exercer tantas horas e deixa de cumprir o compromisso contratual, e aí o Estado tem de contratar uma pessoa para substituí-lo. E aí não há o que se falar em melhorar, em dar aumento, se quando eu tinha de ter uma pessoa apenas há três para fazer o trabalho que uma, naturalmente, deveria fazer.

Nós não podemos ser permissivos com isso. O Estado, este secretário, esse governo, os técnicos dessa secretaria, não estão perseguindo ninguém. Não temos desamor a ninguém da educação. Pelo contrário, a gente tem amor por essas pessoas que trabalham e trabalham muito. As pessoas não podem ouvir as mentiras de gente que está saindo da sua zona de conforto. 

Busque, avalie, toda pessoa que está gritando aos quatro cantos tem um problema. A maioria delas tem um problema. Porque elas estão gritando achando ruim e reivindicando porque estavam numa situação muitas vezes ilegal para suas comodidades. A pessoa que está certinha lá na escola, cumprindo seu contrato, essa não está procurando imprensa, essa não está gritando porque ela está fazendo aquilo para o que foi contratada. Então ninguém mexeu com ela, com certeza.

Autor / Fonte: Vinicius Canova / Rondoniadinamica

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