Governador de Rondônia critica intervenção militar no Rio: 'A causa está nas fronteiras brasileiras'

Governador de Rondônia critica intervenção militar no Rio: 'A causa está nas fronteiras brasileiras'

Confúcio: "[...] o Rio de Janeiro é apenas o efeito. A causa está nas fronteiras brasileiras" / Foto: Gregory Rodriguez (Rondônia Dinâmica)

SÃO PAULO — Estados vizinhos ao Rio não escondem preocupação com a intervenção federal. Embora considerem necessária a medida, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo já se articulam para estabelecer uma estratégia que tente evitar uma possível migração de criminosos do Rio para esses estados. Uma reunião deve acontecer na próxima semana com dirigentes da área de segurança pública. A ideia é traçar um plano estratégico para que o tráfico não ganhe ainda mais espaço em áreas já sob a ocupação do crime organizado nessas regiões.

O secretário de Segurança Pública do Espírito Santo, André Garcia, disse que pretende mobilizar forças policiais para a divisa.

— Precisamos nos precaver contra a migração de criminosos, antecipar qualquer cenário para não sermos surpreendidos e garantir a segurança dos capixabas — disse ele, em entrevista coletiva.

Se necessário, diz o secretário, um plano de contingência será estabelecido, com o reforço de tropas efetivas da Polícia Militar, inclusive com reações pontuais e reforço do patrulhamento aéreo. O governo de Minas Gerais divulgou nota ontem informando que já existe um planejamento de ações das forças de segurança para fazer um trabalho de inteligência em conjunto com outros estados.

“O governo do estado está atento e já em planejamento de ações para evitar qualquer resquício negativo oriundo da situação da segurança pública do estado vizinho do Rio de Janeiro”, informa o governo, lembrando que a Secretaria de Segurança Pública, as polícias Militar e Civil, o Corpo de Bombeiros e o sistema prisional já vêm realizando um trabalho com outros estados. O plano estratégico a ser adotado não foi divulgado por questões de segurança.

FACÇÃO PAULISTA NO RIO

O governo paulista também demonstrou preocupação e, por meio de nota, disse que há um “trabalho de inteligência policial” sendo promovido para atuar “no sentido de identificar uma eventual migração da atividade criminosa possibilitando imediata e rigorosa reação do Estado”.

O governador Geraldo Alckmin já havia considerado necessária a intervenção no Rio. Estudiosos da área de segurança avaliam que a migração de criminosos também deve ser uma preocupação do estado, principalmente por causa da ligação de uma das maiores facções paulistas — o PCC — com bandidos do Rio. Há suspeita de que o grupo já agiria em favelas na capital fluminense.

A segurança nas fronteiras também é uma preocupação dos estados. O governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB), defende a presença das Forças Armadas para guardar os mais de 1.400 quilômetros de fronteira seca que separam o estado da Bolívia e do Paraguai.

— Já apresentamos projeto neste sentido ao Ministério da Justiça, e entendemos que não adianta combater o problema da droga nos morros do Rio e nos grandes centros se não blindarmos as nossas fronteiras — afirmou ontem Azambuja ao GLOBO.

As estradas no Mato Grosso do Sul são consideradas o maior corredor de distribuição de drogas e armas da América do Sul, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2016, de acordo com o relatório, a polícia apreendeu duas mil toneladas de drogas em solo brasileiro — um quarto só nas rodovias da região. O governador de Rondônia, Confúcio Moura (MDB), faz coro ao colega do Mato Grosso do Sul. Segundo ele, só duas bases fazem o patrulhamento de mais de 1,2 mil quilômetros de fronteira com a Bolívia.

— Estamos completamente desguarnecidos. Há circulação livre de barcos para lá e para cá. Precisamos descontingenciar recursos para botar as Forças Armadas nas fronteiras.

Moura ainda criticou a intervenção no Rio de Janeiro:

— Essa intervenção é uma atitude última para dar uma resposta imediata à situação. Mas não resolve, porque o Rio de Janeiro é apenas o efeito. A causa está nas fronteiras brasileiras, na ausência da presença do Estado nessa extensa fronteira — diz ele. — Se o governo não encarar o problema real, o resultado vai ser decepcionante — reforça o governador.

Autor / Fonte: O Globo

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