Porto Velho: onde pagar (muito) caro é normal

Porto Velho: onde pagar (muito) caro é normal

Por Marcelo Negrão, publicado originalmente em Medium

Recentemente, Porto Velho foi agraciada com a chegada das cafeterias, hamburguerias e docerias profissionais. E é inegável que vieram para ficar. Porto Velho está crescendo, é uma terra de muitas oportunidades.

Até então, éramos “reféns” das grandes franquias de fast-food (Subway, McDonald’s, Bob’s) ou pizzarias.

Pois bem, o pior aconteceu, pois hoje, estamos reféns, também, desses novos lugares. Explico o porquê.

Qualquer pessoa que queira montar um negócio, deve ter em mente o return on investment (tempo necessário para que o dinheiro investido no empreendimento volte), também chamado taxa de retorno. E é natural que os preços sejam um pouco salgados à primeira vista para nós, consumidores. Óbvio, o negócio precisa começar a dar lucro.

Questiona-se: por que mesmo depois de tanto tempo, continua caro (muito mais caro) um mísero hambúrguer ou pedaço de bolinho? Melhor, uma lata de refrigerante?

Pagar R$ 5,50 em uma lata de refrigerante?
Pagar mais de R$ 30,00 somente num hambúrguer de carne que sequer é de corte nobre?

Há lugares em Porto Velho que uma simples refeição individual (hambúrguer + batata frita + água/refrigerante) e uma simplória sobremesa sai, nada mais, nada menos, que mais de R$ 80,00.

Outback?

Isso se não incluir as famosas Taxas de Serviço… Ou se você não pedir uma cerveja.

É, no mínimo, um verdadeiro escárnio o que estão fazendo com o consumidor porto-velhense. E que ninguém venha falar que o que conta é a “experiência do lugar”, trata-se, reitero, de preços fora da realidade econômica de Porto Velho.

E não estou falando da grande massa, que fique claro. A população desse estamento social, nem em sonho, enxerga-se num lugar premium/gourmetcomo esses.

Quem planta, colhe.

O reflexo disso está na queda da qualidade dos produtos (um hambúrguer frio ou milk shake com plástico triturado, por exemplo — experiência própria) e atendimento que deixa a desejar — raros os lugares em que o padrão do atendimento é satisfatório ou bom. Sem falar da nova tendência de alguns desses lugares: fechar o estabelecimento e convidar quem está dentro do recinto, a se retirar. Ainda que o convite seja o mais educado possível, ser interrompido no meio do sorvete é inaceitável. Fica a dica.

Lei do preço único

O professor de Economia Robert H. Frank ilustra essa situação no livro “O Naturalista da Economia” com o preço do sal. Em tese, ele deve ter o mesmo para todos, visto que é o mesmo produto. Porém, uma pessoa rica pode estar disposta a pagar mais por ele pelo simples fato de ter maior poder de compra.

De acordo com a lei do preço único, se um comerciante explora essa disposição do mais rico e eleva o valor de seu produto, ele abre espaço para que concorrentes entrarem nesse mercado em busca de mais lucro. Como resultado, mais uma vez, o preço cairia e acabaria o mesmo para todos.

Além disso, neste cenário, como os mais pobres continuariam pagando menos pelo sal, eles poderiam comprar o produto barato e revender aos ricos com uma certa margem de lucro — mas, ainda assim, por um valor inferior ao praticado pelos comerciantes. A farra duraria pouco: à medida que um maior número de pessoas procura essa vantagem, a diferença de preço diminuiria.¹

No cash on the table

O preço praticado por alguns estabelecimentos desse ramo chega a soar como se estivessem filtrando seu público, da classe média para a alta classe alta. Há lugares que já cortaram funcionários e reduziram o horário de funcionamento. Crise? Certamente. Pouca demanda? Talvez.

E cumpre lembrar nessas horas que, apesar da renda média do trabalhador porto-velhense estar acima da média nacional (e a melhor da região), ainda sim, os preços praticados pela grande parcela das cafeterias, hamburguerias e docerias é muito inviável.

Contra-mão até para uma família classe média. Gastar de 35–40 reais/pessoa não é salubre, tampouco uma rotina.

Assim como as brigaderias gourmet e, logo depois, a onda dos food trucks, até então atividades pouco exploradas, onde os preços eram bem maiores do que a população porto-velhense estava acostumada a lidar.

Porém, com a expansão desse mercado e, consequentemente, com o surgimento de novos estabelecimentos, o valor dos brigadeiros gourmetcaíram. Bem como o valor dos produtos oferecidos pelos food trucks.

Portanto…

É sabido que empreender no Brasil é um desafio (encargos trabalhistas, taxas públicas, burocracia demasiada e etc). Isso não se discute.

A grande questão analisada aqui é que Porto Velho não é uma cidade litorânea, tampouco uma cidade dependente do turismo para praticar preços muito próximos ou semelhantes como de regiões assim. Apenas.

Marcelo Negrão


¹ http://g1.globo.com/economia/blog/samy-dana/post/nao-e-possivel-lucrar-com-gourmetizacao-por-muito-tempo.html

Autor / Fonte: Marcelo Negrão

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