Sobre situação interna do partido, Padre Ton diz que PT de Rondônia não pode ser hipócrita e agir ‘como os golpistas’

Sobre situação interna do partido, Padre Ton diz que PT de Rondônia não pode ser hipócrita e agir ‘como os golpistas’

"Ninguem. Ninguém!", diz Padre Ton sobre possibilidade de eleger nomes em coligação exclusivamente de esquerda

POR VINICIUS CANOVA
FOTOS DE GREGORY RODRIGUEZ

Porto Velho, RO – Em entrevista ao Rondônia Dinâmica, o presidente em exercício do PT regional Padre Ton, atual vice-prefeito de Alto Alegre dos Parecis e também ex-deputado federal, contou sua versão sobre os últimos fatos ocorridos internamente nos meandros da legenda.

Resumidamente, há um imbróglio intrapartidário que dá voltas e reviravoltas nos últimos dias.

No cerne da questão estão de um lado o próprio Ton e o deputado estadual Lazinho da Fetagro, com apoio do ex-prefeito Roberto Sobrinho; do outro, a ex-senadora Fátima Cleide que, irresignada com a decisão da sigla em coligar-se com PDT e aliados, buscou a Executiva Nacional.

A intenção era suspender a determinação regional de parceria com os pedetistas e afins e formalizar união completamente à esquerda com PCdoB e PSOL, priorizando tanto efetivação de sua postulação ao Senado Federal quanto palanque radiotelevisivo ao ex-presidente Lula, preso desde abril deste ano.

A última veiculação regional patrocinada pelo PT e relacionada ao caso rechaçou de vez a candidatura de Fátima ao Senado e garantiu, contrariando as determinações da Nacional, a coligação com a chapa encabeçada por Acir Gurgacz (PDT). Até o dia 15 de agosto novas deliberações podem mudar o cenário estabelecido por ora.


"Acabou aquele PT pés no chão. Muita gente no partido quer fazer campanha, vou ser realista, com dinheiro!"

Rondônia Dinâmica – Qual o panorama derradeiro do PT regional para estas eleições em 2018?

Padre Ton – Desde o começo do ano a estratégia do PT de Rondônia está à luz da Nacional, onde a prioridade é a defesa da eleição do presidente Lula, a eleição de deputados federais, senadores e manter nossos espaços na Assembleia Legislativa. Não era e não é prioridade do PT nas eleições deste ano ter candidato ao governo. Porque queríamos abrir para coligações e sair do isolamento.

RD – Por que todo esse imbróglio interno, então?

PT – Na reunião ocorrida no dia 02 de agosto, à base de 80% dos votos apresentados por diretorianos, o PT achou por bem coligar com partidos além do bloco de alianças nacional. Foi tudo muito conturbado, houve muita discussão. E aí, no sábado à noite, dia 04, nós fomos surpreendidos com uma decisão da Nacional porque a ex-senadora Fátima Cleide entrou com recurso oral e a Executiva determinou que o PT coligasse somente com PSOL e PCdoB, garantido a vaga ao Senado.

RD – O senhor cumpriu a determinação?

PT – No domingo seguinte, eu como presidente em exercício do partido, coloquei à apreciação a questão para que nós pudéssemos num primeiro momento discutir essa resolução da Nacional. A princípio, optamos por atender à resolução de que o PT teria que coligar com o PSOL e PCdoB e abrir a vaga ao Senado.

RD – E o que ocorreu de tão drástico para que a resolução não fosse seguida?

PT – Ficou estabelecido que, se não conseguissemos formalizar o bloco de esquerda, fecharíamos com o do PDT. A resolução foi votada por oito a dois e uma abstenção. Quando o relógio marcou 18h no domingo (05), final da convenção, nós não conseguimos avançar em conversações com o PCdoB e aí só havia à disposição do PT uma composição exclusiva com o PSOL. Chegamos à conclusão de que, com o PSOL, não elegeríamos sequer um único deputado estadual. Pior ainda para os pretensos candidatos a deputado federal e ao Senado.

RD – É oficial?

PT – Sim, ontem [se refere à segunda-feira, 06]nós publicamos nossa ata formalizando a coligação com o PDT. Nós teremos o direito de defender nossa candidatura a presidente, do presidente Lula ou de outro que ele indique, e iremos entrar com quinze nomes a deputado estadual e dois nomes para deputado federal.

RD – O senhor concedeu uma entrevista à emissora de rádio local e falou sobre falsificação de ata protocolada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RO) sem se aprofundar no tema. Pode ser mais específico?

PT – O pessoal estava meio nervoso dentro do PT. E depois da reunião de domingo, da convenção, nós acabamos saindo de dentro do partido e, na segunda-feira, fomos preparar toda a documentação para protocolar na Justiça Eleitoral. Protocolamos a ata da decisão com a determinação de caminhar com o PDT, às 17h30. Por volta das 19h, o TRE/RO nos informou que havia duas atas registradas. Alguém dentro do PT protocolou outra ata. Fui ao TRE/RO e eles me notificaram  e deram 24h para que o PT pudesse protocolar a ata verdadeira no sistema da internet, com a respectiva senha.  

RD – O que o senhor está relatando tem características de crime de falsidade ideológica e é algo muito sério. Quem assinou a ata falsa?

PT – Eu não li a ata, a segunda ata. Mas acredito que seja uma ata falsa. Por quê? Porque na ata você tem de citar quem preside o ato. E quem presidiu a convenção fui eu. O documento é assinado tanto pelo presidente quanto pelo secretário-geral do partido, portanto se alguem fez essa ata, agiu de má-fé e incorreu em falsidade ideológica. Ou protocolou sem rubrica, ou falsificou minha assinatura. A ata validada pela Justiça Eleitoral foi a nossa.

RD – As últimas notícias dão conta de possível intervenção da Executiva Nacional em Rondônia caso a legenda insista em coligar com o PDT. O senhor acredita que isso deva ocorrer?

PT – Olha... Até agora, por exemplo, nós entramos com recurso contra a decisão de sábado proferida pela Nacional. Apresentamos no domingo cedo. Por ora, não fomos notificamos pelo PT sobre a decisão do nosso recurso. O PT nacional precisa respeitar a decisão das bases. E eu não acredito em intervenção porque 80% do diretório apoiou nossa decisão. O PT tem de coligar para poder eleger deputados.

RD – Essa deliberação tem a ver com o enfraquecimento da sigla no Estado de Rondônia?

PT – Dessa vez o PT minguou. Nós estamos passando por uma crise muito séria. Se nós não formos estratégicos iremos definhar. É claro que em 2014 na nossa convenção o PT estava cheio, igual na reunião da última quinta-feira. E o povo dizia: “Padre Ton, vai! Vai! Vai!”. E eu fui [ser candidato ao governo abrindo mão da reeleição a federal]. Me lasquei.

RD – E por que “se lascou”?

PT – Porque muita gente não entra na campanha. Acabou aquele PT pés no chão. Muita gente no PT quer fazer campanha, vou ser realista, com dinheiro! E muitas vezes a gente se anima ali e, é aquela coisa, quando você está vivo, é ruim; quando morre, é bom pra todo mundo. Essas questões têm de ser analisadas. Eu, nas negociações com o Acir, disse na “cara” dele: “Nós vamos ter que comer muito sal pra caminhar com você. Porque você votou a favor do impeachment”.

RD – E ele?

PT –  Aí ele tentou justificar e tal... e eu perguntei: “P****, por que você não se absteve?”.  Estrategicamente, se tivesse se abstido, ele estaria de bem com um lado e de bem com o outro, entendeu? Por isso que nessas negociações com o PDT a principal exigência é espaço para defender nossas candidaturas majoritárias.

RD – E com o registro oficial da ata no TRE/RO, acaba a discussão e ponto final?

PT – Olha, eu não sei. Sei que já estamos verificando a documentação para registrar nossas candidaturas. Acho que se a Nacional tomar uma decisão radical, quem perde é o partido.

RD – O senhor crê piamente que em qualquer outro panorama, principalmente levando em conta uma aliança exclusivamente de esquerda, o partido não conseguirá eleger ninguém?

PT – Ninguem. Ninguém! Se elegesse, eu teria que sair candidato a deputado estadual para ajudar o partido.

RD – Por quê?

PT – Por exemplo, numa aliança com o PSOL, e eu gosto do Pimenta [de Rondônia], conversamos muito com ele, estaríamos fadados ao fracasso. Porque o PSOL fez 0,97% dos votos em 2014. E até o momento o Pimenta era pré-candidato a deputado estadual. Estávamos conversando e iríamos caminhar juntos. Inclusive ele pediu pra fazer dobradinha comigo. E agora já é candidato ao governo. Não adianta, nós temos que eleger deputado federal. O deputado federal é que conta para o Fundo Partidário das eleições de 2020, senão não haverá recursos.

RD – Na perspectiva encaminhada, há espaço para ex-senadora Fátima Cleide?

PT – Temos vagas a federal, a estadual, enfim, podemos trocar candidatos, mas não acredito que ela queira. Tem horas que temos de dar um passo para trás.

RD – Voltando à entrevista concedida à rádio local. Foi perceptível que a bancada de jornalistas o ironizou em relação ao termo golpe, utilizado por petistas para designar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Percebendo ou não, o senhor e o próprio partido foram alvos de chacota após concordar que, dentro das  hostes da legenda, estaria também havendo um golpe por conta das determinações da Nacional. Não foi um erro conceder essas declarações?

PT – Eu acho assim: temos de ter cuidado com a contradição.  Por exemplo, a grande disputa interna ali era dizer que nós estávamos coligando com golpistas. Mas a atitude da Nacional em não respeitar o voto do diretório regional baseada em recurso oral foi muito rápida e não nos ouviu. Qualquer pessoa simples vê que uma coligação com PCdoB e PSOL, ou apenas com a última, não nos dá chance para nada.

RD – Mas o senhor não respondeu à pergunta...

PT – Temos de cuidar porque se nós denunciamos o golpe, não podemos ser exemplo de golpistas. São atitudes que precisamos avaliar. Mas também é necessário ter outro cuidado.

RD – Com o quê?

PT – Precisamos medir as palavras porque não podemos ser hipócritas nem contraditórios. Por exemplo, em 2014 eu disse em Cacoal, num encontro do PT, que não seria de jeito maneira vice do [ex-governador] Confúcio Moura (MDB). Usei uma frase, não lembro qual, e no final eu não podia mesmo ser vice dele porque seria contraditório. Aí fica a lição de mensurar as consequências de tudo o que se diz.

RD – E como isso se aplica à situação do PT de Rondônia?

PT – A atitude do PT nacional é postura de partido antidemocrático. O PT sempre incentiva o colegiado, a reunião, o coletivo, entendeu? Eu cumpri a decisão da Nacional de não coligar em 2014 e fazer a coligação “branca” com o Acir porque era isso que foi determinado.

RD – É uma decisão antidemocrática se há previsão regimental?

PT – Ela é prevista no regimento do partido, mas eu acredito que o nosso recurso era muito bom. E as nossas razões não estão sendo levadas em conta. Nós temos ata, discussões e voto.

RD – Então quando o senhor fala em golpe, ou decisão antidemocrática, que seja, está se referindo à Executiva Nacional e suas ligeiras deliberações, não à postura da ex-senadora Fátima Cleide em buscar alternativas às suas intenções?

PT – Não, não... Nós queríamos a candidatura de Fátima. Nós não encontramos espaço estratégico dentro das coligações, infelizmente. E estrategicamente sozinhos, com a manutenção da candidatura ao Senado, o PT de Rondônia é inviabilizado.  A Fátima fez um mandato muito bom, foi uma boa senadora. Ocorre que, sozinhos, ou com o PSOL, o partido é inviabilizado como um todo.

Autor / Fonte: Rondoniadinamica

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