Apenas um ouvido

Lucas Tatuí - 2010-01-12 - 19:21:00 -
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Você já observou que a maioria das pessoas está sempre pronta para falar e tão indisposta para ouvir?! Os conselheiros de plantão estão por toda a parte: os que se acham dotados do dom da palavra certa. Eu já fui um desses, até conhecer o senhor Jurandir...

Fazia muito frio naquela noite de domingo, em Juiz de Fora (MG). Eu estava assistindo a uma palestra num auditório no centro da Cidade. E no dia seguinte, teria que acordar bem cedo para ir para o cursinho pré-vestibular.

Tudo o que eu mais queria na vida, naquele momento, era que a palestra não se prolongasse para eu chegar logo em casa, tomar uma sopa quente, e me aquecer no edredom.

A palestra, para a minha satisfação, não se prolongou. Mas, para a minha decepção, o senhor Jurandir entrou em cena...

Eu já havia saído do auditório e iria atravessar a avenida para seguir o caminho de casa, quando alguém bateu no meu ombro e me perguntou:

- Gostou da palestra?
- Sim – respondi curto e objetivamente para não dar espaço para um início de diálogo.

Mas não deu outra! O diálogo já estava iniciado, ou melhor: o monólogo. O senhor Jurandir me segurou durante horas na porta daquele auditório. Vi os participantes da palestra indo para suas casas, um por um, do primeiro ao último; observei o auditório sendo fechado, o movimento da rua reduzindo, e os meus ossos doíam de tanto frio! (e dói até agora, só em pensar! – rsrsrs).

Cada tentativa minha de pôr um fim àquele entediante monólogo era frustrada por mais conversas e conversas infindáveis, que seguiam seqüencialmente sem pausa ou espaço para que eu pudesse dizer uma só palavra.

O tempo ia passando, e eu começava a ficar roxo de frio e de raiva, diante de um homem em crises existenciais, que enchia os meus ouvidos de problemas pessoais e familiares. Mas que, no entanto, me parecia não querer ajuda, já que não me deixava falar uma só palavra!

Na época, eu tinha uma mania de sair dando conselhos para todo o mundo – tipo um psicólogo ambulante. E o que mais me incomodava diante do senhor Jurandir era que ele não me dava espaço para abrir a boca, quando eu achava que só aconselhando-o poderia ajudá-lo.

Falar ao senhor Jurandir, ali na porta daquele auditório, era uma tarefa impossível. Ele só falava, fala, e falava. Enquanto isso, eu me retorcia de raiva, insultando-o no pensamento: “Que homem chato! Só ele fala! Parece mais um papagaio tagarela!”.

Até que, de repente, fui profundamente tocado e surpreendido por aquele senhor, quando ele me revelou:

- Olha Lucas, estou me sentindo muito bem agora. Faz muito tempo que alguém me ouve com tanta atenção como você o fez.

Amigo leitor, confesso que essas palavras finais do senhor Jurandir me fizeram cair do cavalo. E toda a minha raiva também caiu comigo. Fiquei tão sensibilizado ao ponto de até ser capaz de passar toda a noite ali em pé, tremendo de frio e ouvindo os desabafos daquele pobre homem.

Pude compreender que o senhor Jurandir não necessitava de palavras, nem muito menos de conselhos. Tudo o que ele precisava mesmo era de um ouvido – apenas um ouvido! Ele só queria desabafar; colocar para fora suas dores e aflições interiores.

Sua filha mais nova estava enterrada na promiscuidade e no mundo das drogas. Seu casamento estava afundando. Sua empresa estava indo de mal a pior, e suas esperanças estavam abaladas. Na medida em que ele me falava de todas essas coisas que o sufocavam, era como se um peso fosse retirado de sua alma aflita. Ele se sentiu aliviado por poder compartilhar dos seus pesares com alguém - e esse alguém fui eu.

Assim como o senhor Jurandir, tem muita gente por aí que também carece de um ouvido amigo. Mas, infelizmente, ouvidos são raros no mundo de hoje. Somos realmente mais dispostos a falar do que a ouvir.

O escritor norte-americano John Blancher disse que “o ser humano tornou-se tão insensível, ao ponto de não ouvir o grito de alguém morrendo ao seu lado por falta de atenção.” E há um provérbio indiano que diz que um ouvido atento vale mais do que uma boca falante.

Pense nisso! E que em 2010 sejamos apenas um ouvido.
O autor, Lucas Tatuí também é editor do Paginadotrabalhador.com

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