
Publicada em 02/04/2025 às 11h43
Fotomontagem feita com uso de IA / Reprodução
Porto Velho, RO – A tensão política entre Marcos Rogério (PL) e Marcos Rocha (União Brasil), acirrada nas eleições de 2022, voltou ao centro do debate em Rondônia. No dia 1º de abril de 2025, o senador utilizou as redes sociais para criticar diretamente o governador, reacendendo um embate que parecia adormecido desde sua derrota nas urnas. A escolha da data — associada ao “Dia da Mentira” — não passou despercebida, e a troca de farpas deu o tom do que pode ser o início informal da campanha estadual de 2026.
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“Hoje é 1º de abril e não posso deixar esse dia passar sem lembrar de algumas promessas feitas pelo governador de Rondônia durante a campanha, mas que nunca foram cumpridas”, escreveu Rogério. “Não é com prazer que falo sobre isso, mas com responsabilidade. Fiscalizar e cobrar é parte do meu dever com o povo rondoniense.”
Rocha reagiu de imediato: “Não ligo para esses bullings [sic], pois sofri isso a minha vida toda. É só mais um fraco demonstrando sua fraqueza moral e jogando para outros a sua própria característica”.
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A movimentação sugere que o senador apertou o botão do “modo eleição” com bastante antecedência. Cotado para disputar novamente o governo do Estado, ele tem adotado uma postura cada vez mais agressiva, mirando diretamente no atual governador, seu antigo adversário nas urnas. O ataque direto mostra não apenas a tentativa de retomar o protagonismo político com base no desgaste do oponente, mas também o retorno a uma estratégia que já se mostrou ineficaz.
Em 2022, Marcos Rogério foi derrotado por Rocha no primeiro e no segundo turnos. Após a eleição, ainda tentou reverter o resultado no Tribunal Regional Eleitoral, sem sucesso. Sua campanha, à época, apostou fortemente na polarização, em um discurso beligerante e na associação direta ao bolsonarismo mais performático. A tática, contudo, não conseguiu conquistar o eleitorado rondoniense, mesmo com o apoio explícito de Jair Bolsonaro.
Curiosamente, o próprio senador reconheceu os erros daquela campanha. Em entrevista concedida ao podcast Resenha Política, em 25 de março, ele afirmou: “Faltou maturidade, traquejo político, habilidade. Eu errei”. Disse ainda que não buscou alianças estratégicas e que não fez o trabalho de base necessário: “Faltou apenas um gesto meu de sair daqui, ir lá na cidade, sentar com a liderança, conversar e trazer para o projeto”.
Apesar da autocrítica, os movimentos recentes indicam que Rogério pode não ter assimilado completamente a lição. O tom combativo adotado nas redes sociais parece mais direcionado a mobilizar a base bolsonarista mais radical do que a dialogar com o eleitor moderado — justamente o segmento que tende a decidir eleições em Rondônia.
Em 2022, mesmo com dois candidatos alinhados a Bolsonaro no segundo turno, foi o eleitorado de centro-esquerda quem definiu o pleito ao escolher o menos radical entre os dois. A leitura que permanece é simples: parte significativa do eleitorado rondoniense, embora conservador, rejeita o extremismo. A cartilha bolsonarista — com ataques ao STF, defesa de anistia a golpistas e elogios a Donald Trump — pode energizar uma bolha, mas não tem se mostrado suficiente para garantir vitória no Estado.
Esse padrão se repetiu nas eleições municipais de 2024. Mesmo com a presença de Bolsonaro e Michelle em Porto Velho para apoiar Mariana Carvalho (União Brasil), a candidata foi derrotada por Léo Moraes (Podemos), que adotou um tom mais moderado e evitou transformar a eleição em um plebiscito ideológico.
Enquanto Rogério reforça seu discurso ideológico e aposta na visibilidade digital, Rocha, em 2022, optou por uma campanha centrada na apresentação de resultados administrativos e na moderação do discurso. A estratégia pragmática foi eficiente e pode novamente servir de contraste se o senador seguir apostando em confrontos e ataques.
No Resenha Política, Marcos Rogério confirmou que o PL lançará candidatura própria ao governo em 2026, seja com seu nome ou outro. No entanto, ao inaugurar a pré-campanha com embates pessoais e acusações vagas, ele corre o risco de repetir o enredo de 2022: falar apenas para os já convertidos e afastar os indecisos. Com Bolsonaro inelegível até 2030, o senador continua mirando em um fantasma político que, no momento, não está no jogo.
A política é, por natureza, um espaço de disputa. É natural que Marcos Rogério queira se reposicionar e demonstrar combatividade. Mas se o objetivo é vencer, talvez seja hora de abandonar o personagem do “pitbull” e investir em um projeto mais amplo, que vá além da fidelidade ideológica. Em Rondônia, a régua do eleitor mudou — e o radicalismo pode já ter passado do prazo de validade.
O tiro inicial da pré-campanha foi disparado. E embora ainda seja cedo para medir seus efeitos, o que se vê é um parlamentar promissor repetindo a estratégia que já o afastou do Palácio Rio Madeira: embate no lugar de proposta, ataque no lugar de articulação.
